O Episódio Xuxa/Sasha e o Analfabetismo Funcional no Brasil

Esta semana a bola da vez no Twitter foi o caso Xuxa e Sasha. Pra quem não sabe, Xuxa estava twittando das gravações de seu novo filme, e comentou que a filha, Sasha, já havia filmado com um bode e filmaria com uma cobra, em seguida, o que por si só já deve ter gerado uma série de respostas maliciosas. Acontece que, logo após, Xuxa permitiu que Sasha postasse uma mensagem, onde a menina escreveu “sena“, ao invés de “cena“, gerando muitas críticas em resposta.

 

A apresentadora, que já andava chateada por lhe criticarem pelos erros de grafia e por escrever em caixa alta, ficou chateada com as críticas recebidas, justificando que a filha fora alfabetizada em inglês e que ninguém merecia ouvir certas “m…”. Indignada, a apresentadora concluiu dizendo que ia embora, que os seguidores não mereciam falar com ela e com seu anjo, referindo-se à filha.

 

Muita piada se fez no twitter, muitas críticas também foram feitas em weblogs, e, em um deles, um texto com a falsa notícia de que Xuxa estaria processando o Twitter – e é este texto que realmente me interessa e que gerou este texto: no final da suposta notícia, havia um grande aviso de que não passava de uma notícia falsa, uma grande brincadeira de mal gosto.

 

Acontece que, entre os defensores e os críticos de Xuxa, muitos comentaram o texto indignados pelo suposto processo, revelando que sequer leram o texto na íntegra e que, se o fizeram, não compreenderam plenamente o teor do texto e do aviso. Até um jornal republicou a notícia como sendo verdadeira e atribuindo a fonte à Globo News. (Se alguém tiver o link do artigo original e do jornal, deixem nos comentários, pois não guardei os links referidos.)

 

Xuxa cometia vários erros de grafia e gramática em seu twitter, sua filha também errou, e por serem pessoas de destaque, causou-se a confusão. Contudo, lendo os comentários, se vê que este é um problema cada vez mais comum na população brasileira: o analfabetismo funcional, pessoas que, mesmo com nível superior, não dominam seu idioma, cometendo constantemente erros básicos, e pessoas que embora saibam ler e escrever, não lêem de verdade, sequer sabendo interpretar aquilo que foi lido.

 

Em vários sites e weblogs, com freqüência vemos erros crassos, alguns de pessoas que tem nível superior, ocupam altos cargos e afins. Não se trata aqui do ocasional erro de gramática ou grafia que todos nós cometemos – eu mesma já fui corrigida num comentário, sem problemas – ou erros de digitação por escrever rapidamente no Twitter, por exemplo, sem revisar o que escrevemos. Trata-se realmente da falta de domínio da língua, um problema alarmante que não acomete só celebridades e que muitos parecem não se importar a menos alguém famoso revele tal problema.

 

Mas o que é o analfabetismo funcional??

Segundo a Wikipédia:

Analfabeto funcional é a denominação dada à pessoa que, mesmo com a capacidade de decodificar minimamente as letras, geralmente frases, sentenças e textos curtos; e os números, não desenvolve a habilidade de interpretação de textos e de fazer as operações matemáticas. Também é definido como analfabeto funcional o individuo maior de quinze anos e que possui escolaridade inferior a quatro anos, embora essa definição não seja muito precisa, já que existem analfabetos funcionais com nível superior de escolaridade.

(…)

Existem três níveis distintos de alfabetização funcional, a saber:

* Nível 1, também conhecido como alfabetização rudimentar, concebe aqueles que apenas conseguem ler e compreender títulos de textos e frases curtas; e apesar de saber contar, têm dificuldades com a compreensão de números grandes e em fazer as operações aritméricas básicas.

* Nível 2, também conhecido como alfabetização básica, concebe aqueles que conseguem ler textos curtos, mas só conseguem extrair informações esparsas no texto e não conseguem tirar uma conclusão a respeito do mesmo; e também conseguem entender números grandes, conseguem realizar as operações aritméticas básicas, entretanto sentem dificuldades quando é exigida uma maior quantidade de cálculos, ou em operações matemáticas mais complexas.

* Nível 3, também conhecido como alfabetização plena, concebe aqueles que detêm pleno domínio da leitura, escrita, dos números e das operações matemáticas (das mais básicas às mais complexas).”

 

De acordo com o Ibope, 75% da população brasileira é composta de Analfabetos Funcionais, muitas delas, nos níveis 1 e 2, apresentando crescimento nos níveis 2, principalmente, e 3.

 

De acordo, ainda, com o pesquisador Paulo Augusto de Podestá Botelho, Professor e Consultor de Empresas para Programas de Engenharia da Qualidade, Antropologia Empresarial e Gestão Ambiental. Membro da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, para o site GuiaRH:

“O Analfabetismo Funcional constitui um problema silencioso e perverso que afeta as empresas. Não se trata de pessoas que nunca foram à escola. Elas sabem ler, escrever e contar; chegam a ocupar cargos administrativos, mas não conseguem compreender a palavra escrita. Bons livros, artigos e crônicas, nem pensar! Computadores provocam calafrios e manuais de procedimentos são ignorados; mesmo aqueles que ensinam uma nova tarefa ou a operar uma máquina. Elas preferem ouvir explicações da boca de colegas. Entretanto, diante do chefe – isso quando ele é mesmo um chefe – fingem entender tudo, para depois sair perguntando aos outros o que e como deve ser realizado tal serviço. E quase sempre agem por tentativa e erro.

O meu caro leitor deve estar imaginando que esse problema afeta apenas uma parcela mínima da população. Não é verdade. Calcula-se que, no Brasil, os analfabetos funcionais somem 70% da população economicamente ativa. No mundo todo há entre 800 e 900 milhões deles. São pessoas com menos de quatro anos de escolarização; mas pode-se encontrar, também, pessoas com formação universitária e exercendo funções-chave em empresas e instituições, tanto privadas quanto públicas! Elas não têm as habilidades de leitura compreensiva, escrita e cálculo para fazer frente às necessidades de profissionalização e tampouco da vida sócio-cultural.”

 

Tenho certeza que ao ler estas informações, imediatamente você identificará pessoas que você conhece e se encaixam no perfil, se é que não se encaixou também. É um problema bastante grave, que a mim, pelo menos, chega a causar uma espécie de vergonha alheia, além de preocupação, não só pelo nível da educação no país, que importa mais do que erro cometido por celebridades e seus filhos, mas preocupação pelos próprios portadores do analfabetismo funcional, que muitas vezes nem se dão conta desta deficiência/limitação que possuem, e caso percebam, não fazem muita questão de melhorar.

Quantas vezes vemos gente cometendo erros absurdos na internet e justificando que na internet a linguagem é outra, como se aqui os erros valessem menos e o idioma aplicado corretamente não valesse nada? Quantas vezes lemos comentários, inclusive em nossos próprios weblogs, que mostram que a pessoa não leu o texto por completo ou, pior ainda, leu e não compreendeu uma palavra sequer???

 

Isso é o mais grave aqui. Não é criticando a Xuxa e a Sasha que se resolve algo, mas ensinando e orientando as pessoas, chamando atenção pra educação no país, treinando melhor os profissionais e exigindo um domínio razoável da linguagem, é debatendo o assunto e alertando as pessoas sobre a existência deste problema. Celebridades e pessoas comuns são vítimas do analfabetismo Funcional. Se Xuxa e Sasha chamaram a atenção pelos erros, porque não, então, aproveitarmos o gancho pra discutir o assunto, não é mesmo?

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3 Responses to “O Episódio Xuxa/Sasha e o Analfabetismo Funcional no Brasil”

  1. Luiz says:

    Pelo menos na minha educação, da quinta série em diante, português, em sua maior parte, era o estudo da análise sintática.

    Quando cheguei ao ensino médio, surgiram duas disciplinas relacionadas: redação (que pegava um horário de 1:40 toda semana – tempo muito restrito para escrever) e literatura (currículo que considero mais do que defasado; é um disparate – você não vai estimular a leitura em um adolescente com Machado de Assis).

    E o que você acha do assunto?

    [Responder]

    Viv Reply:

    @Luiz, Eu acho análise sintática importante, mas, com certeza, igualmente importante é a semântica, ensinar os alunos a interpretar um texto, a analisar criticamente o que lêem, e essa parte não precisa ser ensinada, necessariamente, somente nas aulas de Português. Qualquer professor, de qualquer matéria pode estimular esse tipo de aprendizado interpretativo. Isso cabe aos professores, educadores, escolas, Secretarias de Educação que elaboram currículos, pedagogos…

    Redação é algo que tem que ter na escola, e nunca haverá tempo suficiente. Escrever se aprende escrevendo e lendo muito, e cabe também aos alunos/pessoas que queiram aprimorar sua escrita o treinamento, mesmo fora de salas de aula. Isso cabe a cada um se aprimorar, ao contrário do item anterior.

    E nunca tive professor de redação que se recusasse a ler e corrigir textos que eu escrevia fora do horário de aula para tentar melhorar – vai ver tive sorte.

    Quanto a ser disparate ler Machado de Assis, não concordo. Concordo que às vezes é chato e não estimula ninguém a ler.

    Acho que os professores podem e devem incentivar outros tipos de leitura, trazer outro tipo de material pra sala de aula e discutir, tentar descobrir os gêneros literários que agradam aos alunos até que peguem o gosto pela coisa.

    Mas acho corretíssimo que obriguem a ler clássicos da literatura nacional, mesmo muitos sendo considerados chatos, tediosos por muitos. São exemplos de boa escrita e todo mundo deve conhecer um mínimo da cultura e produção nacional das várias épocas.

    E sejamos realistas: se não forem obrigados, a maioria dos adolescentes nunca vão ler. E dizer que vão perder o gosto da leitura por isso também não cola. Aqueles que não lêem, não gostam de ler, é porque nunca receberam incentivo nem sequer em casa. Eu sempre amei ler, fui rata de biblioteca durante toda a escola e faculdades, já minha irmã, nem tanto.

    Mas eu sempre a incentivei em casa, procurei algo que eu julgava que fosse agradar ela (na época foi o 1o livro de Harry Potter – prometi levar ela ao cinema se ela lesse todo o livro antes – em seguida ela estava apaixonada lendo toda a obra de Tolkien), achei uma maneira de incentivar, e desde então, ela nunca mais perdeu o gosto pela leitura.

    [Responder]

  2. Alexandro says:

    “Obrigar” os pobres coitados dos alunos a lerem os clássicos só como exemplo de boa escrita é, no mínimo, menosprezar a contribuição de autores como Machado de Assis ao pensamento humano como um todo. Talvez o problema do analfabetismo funcional se encontre justamente no fato de o saber estar por demais instrumentalizado: as pessoas frequentam os “templos do saber” com vistas aos diplomas e não com vistas ao aperfeiçoamento cultural ou ao domínio básico das conquistas humanas. Uma vez alcançado o canudo esquecem-se daquilo que aprenderam.

    [Responder]

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